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Palavras

Cartas para Serena.



Escrevi para Serena, o antigo parque de diversões dos meus avós.

Só conheço Serena pelas fotos e ela sempre me deixa à deriva. Preciso falar com ela.
oi-tom | Tamiris de Oliveira Moraes


Primeira de três cartas para Serena

                                                                      São Paulo, 23 de fevereiro de 1956

Querida Serena,

Hoje está frio. Frio o suficiente para machucar os
 dedinhos dos pés. Sonho com você e com o Brasil. Um Brasil diferente daquele que estou descobrindo agora. Então me concentro em meu sonho com você.

Abri uma das caixas antigas, Serena. Você se lembra? Vejo em minhas mãos uma das muitas fotografias.

Soube que você chegou a Minas Gerais. Não sei se confio na fonte que disse tal coisa, mas comecei a pensar nos preparativos para a inauguração do parque. É sempre todo sábado à tarde? A Maria Isabel e o João Pedro estão estressados? Lembro-me da última cidade em que vocês estiveram e dos problemas que surgiram, as crianças voltando para a escola mais cedo... Espero que dessa vez dê tudo certo!


Serena, tenho me perguntado sobre você há alguns dias. Sinto-me desconfortável, então decidi escrever para você, embora nunca tenhamos nos encontrado.

Você não aparece com muita frequência nas caixas que abro, mas sua imagem é persistente. Com essa persistência constante, fiquei preocupado. Comecei a me interessar por você e pelas pessoas que você me apresentou. Quero dizer, acho que você me apresentou. Às vezes, eu a culpo por minhas tardes de verão perdidas com aquelas coisas velhas e empoeiradas. Mas esse sentimento não cresce, porque penso imediatamente nos filmes que crio com você.

Atravessaríamos este país de norte a sul em um sonho ingênuo de recuperá-lo - de quê e por quê? -. Nosso filme não pode sequer sair do estado de São Paulo... No entanto, suas imagens não me deixam.

Prometo ligar para você assim que possível. Assim, poderei falar um pouco mais sobre o que tentei lhe dizer nestas poucas linhas. O telefone da Dona Maria não funciona e tenho que comprar um cartão para usar o telefone público. E o telefone da rua também não funciona... De qualquer forma, eu ligo para você em breve!

Fique bem, aproveite Minas, só ouvi coisas boas de lá. Mal posso esperar para ouvir suas histórias. Enquanto isso, eu mesmo as criarei de onde estou escrevendo.

                                            Um
beijo carinhoso,
                                                            TOM


 
oi-tom | Tamiris de Oliveira Moraes
 
 
Segunda de três cartas para Serena

Rio de Janeiro, 11 de março 1980

 

Querida Serena,

Ainda não recebi uma resposta à minha primeira carta. Talvez você esteja ocupada. Ainda não consegui ligar para você, desculpe-me.

Espero que tenha lido minha última carta para que possa entender o que estou escrevendo para você agora.

As caixas de biscoitos estão mais presentes em meus dias. Elas estão cada vez mais cheias de fotografias. Os outros objetos se perdem na quantidade de momentos fotográficos que encontro nelas. Conheço muito poucas pessoas que estão representadas nelas. Talvez você possa me falar um pouco sobre as que você conhece. Eu sei que você também não conhece muitas delas, afinal, você nunca as encontrou. Mas, nessa mistura, você deve ter ouvido falar deles. Assim como ouvi falar que você estava em Minas. Estou aguardando sua confirmação, pois talvez não esteja recebendo minhas cartas...

 

Bem, Serena, quem são eles?

Essas imagens aparecem para mim, em uma montagem constante de tempo e pessoas.

O que está acontecendo no país no momento? Estou criando imagens para mim mesmo.

Fique bem. Lembre-se de me contar sobre as pessoas que estão com você e sobre as que você ouviu falar. E, acima de tudo, Serena, lembre-se de me contar histórias sobre essa terra tropical pela qual você viaja tanto e que está tão longe de mim agora.

Um beijo carinhoso,

TOM

oi-tom | Tamiris de Oliveira Moraes
 
 
Terceira de três cartas para Serena

 

Paris, 27 de março 2020

 

Querida Serena,

Todo esse tempo e ainda não obtive uma resposta. Desculpe a insistência, mas não sei o que quero de você. Na verdade, eu só preciso escrever para você.

Acho que você se perdeu por lá, não foi?

Em um momento, vejo seus rastros no meio da vegetação que decidiu engolir tudo. Em outro momento, vejo seus restos mortais jogados em grandes buracos que nunca serão encontrados. E, em meio a tudo isso, os rostos que conheci com você e por meio de você desaparecem.

Na semana passada, recebi uma ligação anônima (agora os telefones funcionam!). Achei que estava ouvindo a vovó, mas não reconheci a voz dela. Ela, a voz, apenas disse "pegue o que você encontrou".

O que foi encontrado?

Ainda estou aguardando uma resposta sua. Estarei aqui. Ou lá. Mas estarei.

Esta é minha última carta antes de receber uma resposta sua.

Esperando por você,

Um beijo carinhoso,

TOM

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